

Você se sente preparado para escolher os próximos governantes?
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Abomino determinadas situações, impostas aos meus ouvidos, entre as quais quando certas pessoas de várias faixas etárias, chamam alguém de “tio”, sem que haja qualquer vinculação parentesca com a pessoa e sequer você a conhece. A priori, a outra pessoa, tenta transmitir um elo de pseuda simpatia, sem avaliar o quanto está usando agressividade. Ora, se você é chamado de “tio” por marmanjos outros, qual o significado dos sobrinhos biológicos?
Quando dos difíceis momentos de nossa vida, quer seja no fator saúde, financeiro ou emocional, sempre temos um Anjo da Guarda a nos proteger, acho, enviado por Deus. A gratidão é sentimento tão nobre que se iguala ao amor. O oposto, ou seja, a ingratidão é uma ferida crônica, jamais cicatriza, sangra no peito e agride os movimentos ritmados de sístole no coração. O cinismo do ser ingrato é tão irracional que o mesmo chega a pensar haver sido ferramenta humana, uma oportunidade para alguém fazer-lhe o bem, cuja atitude por sua mesquinhez o engrandece para baixo.
Observo sinceras exclamações, por vezes com lágrimas nos olhos: fulano foi um pai pra mim. Sicrana foi uma mãe para beltrano e sicrano é um irmão que minha mãe não pariu. Esses reconhecimentos enriquecem e estimulam com espontaneidade, nunca fabricados sob dosagem da idiotice, do ser piegas ou da insensibilidade.
Eternamente, reconheço o mérito da profissão-sacerdócio do professor. Reprovo-os e acredito ser antipedagógico, o cidadão ou a cidadã frequentar escola cerca de dezesseis anos até concluir o curso superior, para depois induzir crianças a chamar-lhes de “tia”. A professora é mestra, orientadora, responsável e conduz a nobre parcela da educação de uma sociedade que tende a renovação dos valores impostos, através do propósito de informar para formatar pensamentos e atitudes daqueles pequenos cidadãos. Ela é a professora e eles seus alunos. Ela não é a “tia”, tampouco eles são seus sobrinhos.
Há maneiras adequadas, portanto sociáveis de afeto ao necessário relacionamento professor-aluno, sem o uso e apelos chulos, provincianos e cada vez mais distante do ensinar contemporâneo.
Particularmente, a um restrito grupo de crianças, filhos de amigos, eu disse amigos, não me importo quando sou chamado de “tio” pelos mesmos. Conforta-me saber que nenhum dos meus dos filhos, chamam de tio, a não ser aos verdadeiros, assim, fica descartado a banalização de laços que são constituídos e aplicados à verdadeira família.
Lembro de certa vez, minha ida ao mercado de peixe do sempre folclórico e alegre Ver-o-Peso. O homem falador que me atendia, perguntou: pai, quantos quilos o senhor vai levar? Tomei um susto e rebati: veja como é a vida, de tantas coisas que eu fiz, não sabia que tinha mais um filho. Como é o nome da tua mãe? Enfurecido, com rosto avermelhado, em protesto virou-se de costas sem me dar atenção. Conclui: estou disposto para o DNA. Um abraço pra ela.
Pensativo e chateado pela desagradável cena, sem opção imediata, resolvi tomar uma cerveja bem gelada para saciar minha sede e reanimar meu lado emocional. Eis que chega um bom amigo, vinte anos mais velho do que eu. Um tanto sem jeito, confessei-lhe os fatos do “tio” e agora, “pai”. O mesmo deu uma estrondosa gargalhada, dizendo: eu já passei por isso, o diabo é que agora só me chamam de vovô. Fizemos um brinde à vida, entretanto, não deveria ser assim.
“Vovô”, “pai” e “tio” é a... , isso mesmo que você pensou...
Deveria ser extinto do dicionário de todos os idiomas e, em especial do pensamento humano a infeliz palavra “maturidade”, unida a inescrupulosa expressão “modéstia à parte”. Se vivo ainda fosse, seria determinado pelo bom senso, oito anos de prisão, sem direito a missa aos domingos e banho de sol, ao indivíduo que pela primeira vez teve a arrogância de falar a famigerada expressão: “modéstia à parte”. Aos seus seguidores, 10% da pena.
O respeito é inevitável a qualquer atitude humana e por sermos humanos, temos ou praticamos corrigíveis falhas, às vezes, sem intenção de machucar as pessoas. O problema é que a palavra já foi dita e nem sempre o pedido de desculpas a quem foi ofendido é aceito. Se o foi é por motivo de educação, entretanto, fica no ar, o poder que a palavra exerce em nossas vidas, por vezes tornando-as em estranhas atitudes.
Particularmente, não aprendi e nem quero aprender a dar nó de gravata, dirigir carro e mentir para a mulher que eu amo. Posso até omitir e quem não o faz? Não se trata de ato covarde, pode valer sim, como escudo de defesa a uma séria discussão que por certo não levará a nada. Falei isso a um amigo, atencioso, ouviu o meu ponto de vista e foi radical contra o omitir. Disse-me do êxtase de felicidade quando percebe mentiras de sua mulher, segundo o mesmo, através da mentira chega-se a verdade e a vida oferece tempo suficiente para perdoar e ensinar o equilíbrio de cada situação. Surpreso pelo fato, logo eu, pensava ser mais louco que ele, desapontado, mudei de assunto.
Voltando ao caso “maturidade” é no mínimo uma forte carga de cinismo, por exemplo, o pai que na hora do almoço em tom rude e agressivo, dispara palavras a seu filho adolescente: “a conduta praticada por você não é de homem, é de canalha portador do mal! Não foi essa a formação que recebeste aqui em casa. Eu te falo com “maturidade”, você representa a vergonha da família”. Naquele mesmo dia, antes do jantar, o todo poderoso e honrado pai, cometeu um ato ilícito dez vezes pior e foi parar na cadeia e nas manchetes dos jornais no dia seguinte. Ao invés de “maturidade”, nosso vulnerável universo deveria trocar por “tenho certa vivência para sugerir”.
Quanto ao indigesto “modéstia à parte”. Uma pessoa pergunta a outra: você é capaz de fabricar um isqueiro, melhor que esse? Não, essa não é a minha praia, reponde e prossegue: tenho um amigo, vencedor de vários prêmios internacionais, dono de invejável talento, um senhor designer, cujo o contato posso lhe oferecer. – Observe a segurança e educação de um homem objetivo. Seu interlocutor insistiu: preciso de alguém para melhor adaptar a formatação desse cinzeiro. Você é capaz? Sim, inclusive essa é a minha especialidade, pela qual sou elogiado em vários jornais e revistas especializadas do mundo. Aqui, estão as matérias comprobatórias.
Saber ou não saber fazer, use a verdade. Não subestime a si próprio. É bom ser simples o quanto é horrível rotular-se de “modesto”. Nota-se a real falsidade, elemento vazio, sem conteúdo e com o tempo, forte candidato a eleger-se líder dos guetos do ostracismo, da incompreensão, ao carregar pesado fardo em suas costas, gerado pela ignorância do caráter, violado pelas frestas da medíocre imaginação, cuja a ótica, somente é recomendada aos fracos e despreparados.
Sexta-feira, jogarão Brasil e Portugal. Não mencione, “maturidade” ao Dunga e “modéstia à parte”, à Seleção. Pode dar zebra. paulobandeira28@yahoo.com.br
É natural que as nações, promovam e conservem suas culturas em todas as tendências que exige a sociedade moderna, na busca de ferramentas cada vez mais criativa, na geração de sustentáculos que possam causar pontos positivos na arte e economia, envolvendo fortes laços com capacidade geradora de emprego, elemento tão imprescindível quanto levar conhecimentos a novas gerações, apreciadores dos saberes de cada povo.
O maior patrimônio de uma cultura é o respeito oriundo da mesma a si própria, daí, sua estabilidade que causa admiração e motivo dos porquês de tanto zelo pela conservação, driblando o tempo, tal qual a maioria das mulheres, para as quais o medo de envelhecer aprimora a beleza.
Esse assunto eu falava, há pouco numa mesa de bar, quando um dos presentes, interferiu-me ao perguntar o que eu achava da música sertaneja. Respondi-lhe: é nada mais, nada menos que a continuação da piegas guarânia paraguaia. A letra é como se o amor fosse algo vinculado a questão fúnebre. Covardes, atacam em dupla. Um grita e o outro geme. Risos geral.
Dei continuidade. Há casos onde a ausência de governo deixa a menor aquilo proposto por grupos comprometidos na continuidade da divulgação e ação da cultura como um todo. É o acaso do tradicionalíssimo “Bumba meu Boi” do Maranhão. Fizeram-no dormir, ao acordar faltava-lhe alimento de base. Justamente, há mais de 2.000 km, eis que a surge o “Boi Bumbá” de Parintins, onde a criatividade de Garantido e Caprichoso, envolvem milhões de reais, movimenta o Turismo, alegra a comunidade e para mostrar que cultura também se faz com criatividade e talento, vários artistas parintinenses, são responsáveis pelas principais alegorias de várias escolas carnavalescas do eixo Rio-São Paulo.
Com pessoas amigas fui cinco vezes a locais, onde só rolava Brega. Observei o quanto é interessante a coreografia inventiva de cada casal, fazendo inveja aos artistas do Cirque du Soleil e em determinadas situações, diferente de todos os ritmos, os cavalheiros rebolam mais a região glútea que as damas, o que torna o ambiente um clima desenhado de humor e curiosidade, esta, feita pelos dançarinos com o intuito de mera provocação sensual aos expectadores. Bom de ver e horrível em ouvir as “letras” com mensagens desconexas, chulas e dotadas de indiscutível baixaria.
Recebi um impacto. Há tempo, li aqui em O Liberal, determinada professora, formada em Letras, dizendo que em sala de aula, usa composições de “Brega” para análise de seus alunos. Professora, que análise a senhora ou qualquer pessoa pode fazer de uma letra de Brega?
Isto é subestimar ou agredir o desenvolvimento de uma faixa composta por crianças ou pré-adolescentes, onde todo cuidado deve ser mantido para boa formação dos mesmos em todos os sentidos.
Professora, eu sou caboclo do interior. Se o seu propósito é levar nossa música a sala de aula, use as letras puras e inocentes do Carimbó e Síriá, essas sim têm raízes de nossa gente, nossa cultura, a real fotografia que deve ser revelada a todas as gerações.
O Brega a exemplo de vários ritmos latinos deveria ser apenas musicado. Não é preconceito. Reconheço que o trabalho é aceito por muita gente de conteúdo que abraça o vazio. É uma opção, se feliz, não sei.
Professora: dance, cante, grite e declame Brega. É um direito seu e de quem gosta, nada contra, mas, por favor, esqueça de fazê-lo em lugar sagrado: a sala de aula.
Quando completei 25 anos de idade, em consequência da minha vida relativamente boêmia, jamais imaginei chegar aos 50. Para minha surpresa, por descuido ou extrema bondade de Deus, neste sábado, dia 8, completarei 60. Peço desculpas a quem interessar possa, pelo pouco ou nada que fiz durante tanto tempo. Em rápida reflexão, não escapole a ideia em perguntar-me o que eu fiz com o tempo? Não sei, entretanto, sei muito bem o que esse tempo fez comigo.
Não sou amargo, nem infeliz, entretanto, nunca falaria a alguém ou escreveria, com assinatura reconhecida que sou feliz. Cometer hipocrisia é ato ridículo e prejudica o estímulo de olharmos a lua, as estrelas e acreditarmos que não estamos tão longe do céu. O inferno é mais perto, talvez, aqui.
Agora, aos 60, comprarei 60 rosas vermelhas. A primeira dúzia mandarei para as mulheres que amei demais. A segunda, para as que me amaram de menos. A terceira, será destinada às indecisas que, com sadismo ou opção não esclarecida, me fizeram esperar até cansar. As dúzias restantes, despetalás-ei-as e cada parte das pétalas será distribuída a familiares, amigos, bares, igrejas, bibliotecas, teatros, locais onde frequento e cidades de vários países e de diferentes continentes onde estive.
Nasci em Santarém. Entre minha infância e adolescência, minha família era mutante. Papai, funcionário público, por regulamento era transferido a cada período e assim, moramos em Altamira, Gurupá e Breves. Foi uma época muito difícil. O salário do papai era pago sem atraso. O diabo era que as mercadorias saiam do porto de Belém, para abastecer aqueles municípios, e eram transportadas, a maioria, por canoas a vela, chegando aos destinos com atraso e as prateleiras dos comércios ficavam vazias. Você tinha dinheiro na mão e muitas vezes não podia comprar alimentos.
Finalmente aos 16 anos, conheci Belém. Desembarquei na Estrada Nova. Uma decepção. É isso aqui que é Belém? Quase volto para Breves no mesmo dia. Desisti, talvez porque andei de elevador e conheci maçã, pera e uva.
Em 1969, rumei para o eixo Rio-São Paulo. Minha humilde trajetória teve início no flerte com o rádio, daí minha passagem de carinho pela televisão, abracei o jornalismo, fiz rápidos carinhos com o cinema, pratiquei amor com a literatura e sem haver traição, existe dentro de mim um forte elo, um casamento com conceito de relação aberta, voltado ao pensamento das letras, observando as palavras que constituem parágrafos tornando-se capítulos de atitudes e há sempre uma matéria para escrever, um fato para relatar, um sonho virando realidade e a realidade despertando a ânsia do melhor fazer.
Uma das coisas que mais me surpreendeu, foi quando meu projeto “O Pará abraça a Literatura”, em São Miguel do Guamá, onde eu nunca havia estado, após a minha palestra, a secretária de Educação, ocupou o microfone dizendo que havia uma surpresa pra mim. As cortinas do teatro improvisado da Escola Licurgo Anchieta, abriram-se e jovens atores, com talento, teatralizaram minha crônica “Chico Buarque e o Ricardão”. No final, emocionado, carinhosamente cumprimentei cada participante, dizendo-lhes que aquela era uma das noites mais felizes da minha vida. E foi.
Antes de receber qualquer possível afeto, quero abraçar meus filhos Édson James e Pequeno Paulo Renato, este meu mais fiel companheiro e suas mamães Ivone Costa e Vera Germano respectivamente, pessoas que Deus me presenteou e eu me orgulho de todos.
As lideranças político-partidárias, normalmente têm início nos bancos escolares. O camarada pode não ser o melhor aluno da turma, entretanto, sabe ser carismático, ter certa facilidade de expressão, cria situações que envolve a todos. Se for católico, passa a lecionar catecismo na Paróquia.
Independente da religião, a igreja serve como uma vitrine de grande valor. No quesito “passarela” causa inveja a Gisele Bündchen. É lá que ele nas reuniões com os jovens, expõe novas tendências da mercadologia de si próprio, exigindo do Poder Público, melhoria nos campos da saúde, educação, agricultura, segurança pública, melhoria nas estradas, modernização do trânsito, repaginação de calçadas, ruas, praças e avenidas. O cara, para aquela gente passa a ser “o cara”. E assim, ele é fantasiado de líder e começa a receber paparicos e retribuir sorrindo com tapas nas costas a qualquer manifestação que lhe é dirigida.
Oportunista, não perde aniversários, batizados e casamentos, cumprimentando a todos, até parece ser o anfitrião. Não deixa de ir aos velórios e enterros, usando óculos escuros e no rosto um leve disfarce do ser carpideira, dependendo do status do falecido até discursa. Um horror.
Sua ambição é ser entrevistado através de rádio, jornal e TV. O negócio é aparecer na mídia, divulgar o seu nome, consolidar pelo menos parte egocêntrica de seu caráter. Ele jamais pensa em construtoras, banqueiros, acertos em Brasília, bacanais com belas mulheres. Ainda não! Calma, respeite a pureza de um ser quase ingênuo. Orgasmo geral: um repórter. Belas e contundentes declarações. Dias depois, uma coletiva. Ego preenchido.
É convidado a filiar-se em determinado partido político. Participa da convenção e é eleito por unanimidade. Batalha para adquirir recursos com empresários, pessoas de bem, bicheiros e traficantes, o apóiam. Finalmente é eleito a cargo majoritário. Toma posse, discursa com voz pausada e vez por outra em tom teatral, sem escrúpulos tenta imitar o estilo Obama. É ovacionado por palmas, cujo som é coberto por milhares de fogos e foguetes. Cena tupiniquim.
Um ano foi transcorrido, e ainda reclama do “furo” da gestão passada. Se o antecessor fosse do seu partido haveria silêncio.
Com certa determinação, elabora projetos que são aprovados em Brasília, nos 23 Ministérios. A dinheirama é muito grande. Ele se perde. Não ouve ninguém. Começa o fracasso. Agora, recusa a imprensa, seus companheiros da cor da rotulação da campanha são desprezados. É o fim da picada.
É candidato a reeleição, perde. Não teve a experiência de fazer seu segundo mandato que por certo, seria pior que o primeiro, igual a muitos que são reeleitos. A chance pertence a outro candidato que usou sua mesma estratégia e o término não será diferente enquanto a sociedade não encontrar o equilíbrio da necessária politização, elemento fundamental para escolher um nome capaz de administrar com amor e talento, tendo em volta o melhor sistema político que é a Democracia.
paulobandeira28@yahoo.com.br
cara que me contou esta história não conhece o Gervásio, nem se lembra quem lhe contou. Eu também não conheço o Gervásio nem quem teria contado a história ao cara que me contou, portanto, conto para vocês, mas logo vou explicando que não estou inventando nada.
Deu-se que o Gervásio tinha uma esposa desses ditas "amélias", embora gorda e com bastante saúde. Porém, Mme. Gervásio não era de sair de casa, nem de muitas badalações. Um cineminha de vem em quando e ela ficava satisfeita.
Mas deu-se também que o Gervásio fez 25 anos de casado e baixou-lhe um remorso meio chato. Afinal, nunca passeava, a coitada, e, diante do remoer de consciência, resolveu dar uma de bonzinho e, ao chegar em casa, naquele fim de tarde, anunciou:
- Mulher, mete um vestido melhorzinho que a gente vai jantar fora!
A mulher nem acreditou, mas pegou a promessa pelo rabo e foi se empetecar. Vestiu aquele do casamento da sobrinha e se mandou com o Gervásio para Copacabana. O jantar - prometia o Gervásio - seria da maior bacanidade.
Em chegando ao bairro que o Conselheiro Acácio chamaria de "floresta de cimento armado", começou o problema da escolha. O táxi rodava pelo asfalto e o Gervásio ia lembrando: vamos ao Nino's? Ao Bife de Ouro? Ao Chauteau? Ao Antonio's? Chalet Suisse? Le Bistrô?
A mulher - talvez por timidez - ia recusando um por um. Até que passaram em frente a um inferninho desses onde o diabo não entra para não ficar com complexo de inferioridade. A mulher olhou o letreiro e disse:
- Vamos jantar aqui.
- Aqui??? - estranhou Gervásio. - Mas isto é um inferninho!
- Não importa - disse a mulher. - Eu sempre tive curiosidade de ver como é um negócio desses por dentro.
O Gervásio ainda escabriu um pouquinho, dizendo que aquilo não era digno dela, mas a mulher ponderou que ele a deixara escolher e, por isso, era ali mesmo que queria jantar. Vocês compreendem, né? Mulher-família tem a maior curiosidade para saber como é que as outras se viram.
Saíram do táxi e, já na entrada, o porteiro do inferninho saiu-se com "Boa-noite, Dr. Gervásio" marotíssimo. Felizmente a mulher não ouviu. O pior foi lá dentro, o maitre d'hotel abriu-se no maior sorriso e perguntou:
- Dr. Gervásio, a mesa de sempre? - e foi logo se encaminhando para a mesa de pista. Gervásio enfiou o macuco no embornal e aguentou as pontas, ainda crédulo na inocência da mulher. Deu uma olhada para ela, assim como quem não quer nada, e não percebeu maiores complicações. Mas a insistência dos serviçais de inferninho é comovedora. Já estava o garçom ali ao pé do casal, perguntando:
- A senhorita deseja o quê? - e, para o Gervásio: - Para o senhor o uísque de sempre, não, Dr. Gervásio?
A mulher abriu a boca pela primeira vez, para dizer:
- O Gervásio hoje não vai beber. Só vai jantar.
- Perfeito - concordou o garçom. - Neste caso, o seu franguinho desossado, não é mesmo?
O Gervásio nem reagiu. Limitou-se a balançar a cabeça, num aceno afirmativo. E, depois, foi uma dureza engolir aquele frango que parecia feito de palha e matéria plástica. O ambiente foi ficando muito mais para urubu do que para colibri, principalmente depois que o pianista veio à mesa e perguntou se o Dr. Gervásio não queria dançar com sua dama "aquele samba reboladinho."
Daí para o fim, a única atitude daquele marido que fazia 25 anos de casado e comemorava o evento foi pagar a contar e sair de fininho. Na saída, o porteiro meteu outro "Boa-noite, Dr. Gervásio", e abriu a porta do primeiro táxi estacionado em frente.
Foi a dupla entrar na viatura e o motorista, numa solicitude de quem está acostumado a gorjetas gordas, querer saber:
- Para o hotel da Barra, doutor?
Aí ela engrossou de vez: - Seu moleque, seu vagabundo! Então é por isso que você se "esforça" tanto, fazendo extras, não é mesmo? Responde, palhaço!
O Gervásio quis toimar uma atitude digna, mas o motorista encostou o carro, que ainda não tinha andado cem metros, e lascou:
- Dr. Gervásio, não faça cerimônia: o senhor querendo eu dou umas bolachas nessa vagabunda, que ela se aquieta logo.
Jornalista e escritor
Há cerca de cinco anos, não sei se deixei de pensar tanto na vida ou a vida um pouco em mim. É que tem acontecido transformações em diferentes segmentos, onde o risco de uma neurose de ansiedade é quase um convite, talvez para o desânimo físico e mental ou para falsas gargalhadas, injetadas em perverso humor de noites visitadas pela insônia.
No andar da carruagem, tento prestar atenção em coisas úteis. Sobra-me tempo. As coisas e as causas úteis são tão poucas.
No início do ano letivo, certa manhã levei meu filho ao dentista. Na sala de espera, uma estonteante morena de cabelos compridos. Um misto das Julianas Almeida e Paes, Isadora Ribeiro e Camila Pitanga, que bem poderia ser substituídas pelas loiras Kelly Key, Paula Bulamarqui, Renata Fan e Ana Hickmann. Régua e compasso tomaram conta do meu cérebro e pude medi-la dos pés a cabeça e vice-versa, com direito ao frontal e oposto. Fugaz, ela me olhou como se fosse assédio sexual, inclusive proposital pela própria natureza, aliás, foi. E daí? Qualquer homem que não a olhe assim, logo ela pensaria: é veado enrustido.
De volta, meu filho e eu entramos no elevador. Havia uma babá segurando a mão de uma criança, acredito, cinco anos. Fiz rápido afago em sua cabeça. A babá me olhou com nojo e medo pensando que eu fosse pedófilo. Senti-me agredido.
Ao chegar em casa, minha filha de onze anos, como se fosse uma explosão de torcedor do Fluminense, fulmina-me: - O senhor é irresponsável, incoerente, sórdido, imprestável, covarde e mentiroso. Atônito, tento acalmá-la: - Mas, o que é isso minha filha? Responde: - É que o senhor promete e nunca vai às reuniões de pais e mestres da escola. Os outros pais vão, participam das discussões, emitem opiniões. Sabe de uma coisa, o senhor é um bolha! Com calma, tento novamente reverter o quadro aí ela explode: - Sabe de uma coisa, acho que o senhor não é meu pai! Tento dar-lhe um puxão de orelha. Desisto. É que ela pode me denunciar ao Juizado da Infância e do Adolescente.
Anestesiado de raiva, entro no quarto e minha mulher dispara: - Você é irresponsável, inoperante, displicente e anti-social! Ontem, foi aniversário da mamãe e sequer tomaste a iniciativa em cumprimentá-la, ao menos por telefone. Perdão, meu amor, respondi-lhe. Aí a coisa piorou. Pegando carona do período crítico da TPM ela prosseguiu: - Tira dessa tua cabeça a ideia de querer que eu engravide. Você pode cometer um duplo assassinato! A gripe suína está aí mesmo e eu não vou ficar no grupo de risco. Quis dar-lhe um empurrão. Lembrei-me da Lei Maria da Penha e não sou Róbson Caetano.
Desolado e com nervos à flor da pele de imediato saí de casa e fui a um bar. Tomei cinco cervejas. Chamei o garçom, paguei a conta. Ao sair, verifiquei que o flanelinha havia roubado o espelho do retrovisor. Liguei o carro. Na quarta esquina, havia uma blitz. Bafômetro. Fomos preso o carro e eu. Liguei para o advogado. Tudo em vão, ele estava inadimplente com a OAB. Enfim, dei sorte. No Distrito Policial, não estavam delegado e escrivão. Vi apenas uma menor, catando piolho de um detento.
Resta-me ir para Pasárgada. Se não for possível, opto por Minas. Aí relembro que Drummond disse que Minas não há mais. Dane-se! Vou para Alter do Chão, de onde meus pés não deveriam jamais ter saído. paulobandeira28@yahoo.com.br
Há cerca de cinco anos, não sei se deixei de pensar tanto na vida ou a vida um pouco em mim. É que tem acontecido transformações em diferentes segmentos, onde o risco de uma neurose de ansiedade é quase um convite, talvez para o desânimo físico e mental ou para falsas gargalhadas, injetadas em perverso humor de noites visitadas pela insônia. No andar da carruagem, tento prestar atenção em coisas úteis. Sobra-me tempo. As coisas e as causas úteis são tão poucas.
No início do ano letivo, certa manhã levei meu filho ao dentista. Na sala de espera, uma estonteante morena de cabelos compridos. Um misto das Julianas Almeida e Paes, Isadora Ribeiro e Camila Pitanga, que bem poderia ser substituídas pelas loiras Kelly Key, Paula Bulamarqui, Renata Fan e Ana Hickmann. Régua e compasso tomaram conta do meu cérebro e pude medi-la dos pés a cabeça e vice-versa, com direito ao frontal e oposto. Fugaz, ela me olhou como se fosse assédio sexual, inclusive proposital pela própria natureza, aliás, foi. E daí? Qualquer homem que não a olhe assim, logo ela pensaria: é veado enrustido.
De volta, meu filho e eu entramos no elevador. Havia uma babá segurando a mão de uma criança, acredito, cinco anos. Fiz rápido afago em sua cabeça. A babá me olhou com nojo e medo pensando que eu fosse pedófilo. Senti-me agredido.
Ao chegar em casa, minha filha de onze anos, como se fosse uma explosão de torcedor do Fluminense, fulmina-me: - O senhor é irresponsável, incoerente, sórdido, imprestável, covarde e mentiroso. Atônito, tento acalmá-la: - Mas, o que é isso minha filha? Responde: - É que o senhor promete e nunca vai às reuniões de pais e mestres da escola. Os outros pais vão, participam das discussões, emitem opiniões. Sabe de uma coisa, o senhor é um bolha! Com calma, tento novamente reverter o quadro aí ela explode: - Sabe de uma coisa, acho que o senhor não é meu pai! Tento dar-lhe um puxão de orelha. Desisto. É que ela pode me denunciar ao Juizado da Infância e do Adolescente.
Anestesiado de raiva, entro no quarto e minha mulher dispara: - Você é irresponsável, inoperante, displicente e anti-social! Ontem, foi aniversário da mamãe e sequer tomaste a iniciativa em cumprimentá-la, ao menos por telefone. Perdão, meu amor, respondi-lhe. Aí a coisa piorou. Pegando carona do período crítico da TPM ela prosseguiu: - Tira dessa tua cabeça a ideia de querer que eu engravide. Você pode cometer um duplo assassinato! A gripe suína está aí mesmo e eu não vou ficar no grupo de risco. Quis dar-lhe um empurrão. Lembrei-me da Lei Maria da Penha e não sou Róbson Caetano.
Desolado e com nervos à flor da pele de imediato saí de casa e fui a um bar. Tomei cinco cervejas. Chamei o garçom, paguei a conta. Ao sair, verifiquei que o flanelinha havia roubado o espelho do retrovisor. Liguei o carro. Na quarta esquina, havia uma blitz. Bafômetro. Fomos preso o carro e eu. Liguei para o advogado. Tudo em vão, ele estava inadimplente com a OAB. Enfim, dei sorte. No Distrito Policial, não estavam delegado e escrivão. Vi apenas uma menor, catando piolho de um detento.
Resta-me ir para Pasárgada. Se não for possível, opto por Minas. Aí relembro que Drummond disse que Minas não há mais. Dane-se! Vou para Alter do Chão, de onde meus pés não deveriam jamais ter saído.
Paulo Renato Bandeira
Jornalista e escritor
paulobandeira28@yahoo.com.br