

Você se sente preparado para escolher os próximos governantes?
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Ainda me lembro de um de meus primeiros natais.
Tinha eu pouco mais de quatro anos de idade e pedi ao Papai Noel um velocípede.
Na Santarém do início dos anos cinquenta não existiam carros e eu saía fagueiro pelas tardes ensolaradas pedalando, a viajar pelo mundo imenso da rua de casa.
Mais tarde chegaram os tempos dos filmes de cowboy no Cine Olímpia do Seu Loureiro e eu queria ser Buck Jones, Rock Lane, Buffalo Bill.
Os presentes eram revólveres de espoleta, chapéu de vaqueiro e coisas do gênero.
Na minha pré adolescência minha mãe dizia que se não me comportasse iria ganhar um “cipó”, ou seja, um pedaço de galho seco que servia para dar surras nos moleques traquinas como eu.
Times de futebol de botão, bolas de futebol e outros brinquedos me alegravam a vida na adolescência.
Um dia, com mais ou menos quinze anos, fui a São Paulo e ganhei de presente a “Pequena História do Mundo para Crianças” de V. M. Hillyer, um compêndio de aproximadamente mil páginas, que contava os fatos em linguagem muito simples e agradável.
Então o mundo começou a se abrir para mim.
Contos Iugoslavos, Pequeno Príncipe, os livros de H.G. Wells, Tesouro da Juventude, Machado de Assis, A. J. Cronin entre outros eram os presentes que o Velho Noel me trazia, todo ano, já que papai não gostava que lêssemos revista em quadrinho (mas mesmo assim líamos às escondidas...)
Mamãe preparava presépios em casa, os vizinhos também, dia de domingo após a missa ficávamos admirando os presépios da vizinhança e o grande presépio da Matriz.
Tudo era belo, santo e inocente. Tempos depois comecei a cantar no Coro da Catedral santarena, nas missas do galo e nas cerimônias em Latim, as músicas de meu pai, os emocionantes sons do canto-chão, as missas de Palestrina, José Maurício e Tomás Samaí.
Quando me tornei adulto, de vez, os natais perderam a graça e comecei a ver que tudo não passa de dinheiro, sob o disfarce de suposto festejo cristão.
Descobri que o Papai Noel existia de verdade e, como regra, era e é cruel, pois só dá e dava presente que preste pra gente rica.
Quando entrei na magistratura, a toga tornou meus natais ainda mais insípidos, com sabor de salgadinhos, comidas caras e sem graça, uísque importado, discursos de bajuladores e mais um montão de coisas que com o tempo iam me dando nojo, tédio e desgosto da festa natalina.
Certa noite de natal, na década de noventa, fui convidado a passar a festa no Centro Espírita do Nazareno Tourinho.
Foi um dos dias mais felizes de minha vida.
Nem togas, nem bajuladores, nem bebida importada, nem puxa-sacos e nem discursos hipócritas, nem pinheiro travestido de árvore de natal, exibindo seu desconforto cheio de bolas de vidro de bom gosto duvidoso... só a paz... muita paz.
Nesse dia fui convidado para servir os pobres, os mendigos, os estropiados que ali estavam cantando e declamando poesia (!)... sim, saibam que pobre canta e declama, também.
Na hora da ceia fomos – eu também – servir o jantar àquelas pessoas que tinham o verdadeiro brilho de Cristo nos olhos.
Nunca mais esqueci.
Eu não era nem juiz e nem professor.
Era um simples e muito feliz garçom dos pequeninos, os verdadeiros filhos de Jesus.
Confesso que senti perfeitamente a presença de Cristo ali naquele ambiente.
Este foi o melhor natal da minha vida.
Ainda tenho vivas na memória as inesquecíveis tardes de domingo, quando havia o famoso RAI X FRAN, ali no velho Estádio de futebol ao lado do Convento São Francisco.
Mestre Luciano Santos (clarinetista dos bons) pintava uma espécie de placa, ou outdoor e colocava na Praça da Matriz. O marketing funcionava.
Hilarinho Gentil (outro clarinetista) alugava a mangueira de sua casa, bem na esquina da Turiano Meira com o campo de futebol e a árvore ficava cheia de torcedores.
Quando era gol de vez em quando um galho quebrava e o pessoal se espatifava no chão, mas feliz da vida com a conquista do seu time.
Os mais antigos não se esquecem do “rebraulio” o famoso refresco do Bráulio, as doceiras, o seu Bandeira e seu banquinho etc. Esses e outros mais eram os personagens famosos das domingueiras de futebol na pérola do Tapajós, na minha juventude (anos sessenta).
E eu, que sou São Francisco, sempre admirei os eternos craques do pantera: Nego Otávio, Inacinho, Abdala, Piraculhão, Surdo, Flecha, Rubem Cachorro, Mazinho (um grande centro avante), Amiraldo, Cristóvão Sena entre outros e o maior de todos os tempos, o Manoel Maria que saiu de Santarém para jogar no famoso Santos do Pelé.
Na transmissão da TV o locutor não soube responder direito à pergunta: qual o motivo de chamarem para a respeitável torcida do S. Raimundo de “buchada”.
A resposta é simples, para quem como eu, viveu a época de ouro do futebol santareno. E nada tem de pejorativa.
É que o clube tem suas raízes no bairro da Aldeia.
Ali ficava o Curro Velho, onde se sacrificava o gado que ia ser consumido pela população, no mercado velho, ali na Lameira Bittencourt, quase ao lado do velho Castelo.
Por extensão a torcida era chamada, então, de “pessoal da buchada”, pois desde suas origens o clube tem identificação com o povão, com o pessoal pobre que não tinha condições financeiras para comprar filé e então comia bucho, mesmo.
Vibrei como um verdadeiro santareno deve vibrar. Torci pelo clube de coração do meu pai, o velho Maestro Izoca, autor do hino oficial que, infelizmente, parece estar esquecido.
Para mim, de certa maneira, a vitória não foi novidade. Na época de ouro do futebol santareno era costume clubes de fora levarem uma surra em nossos gramados.
... E me lembro agora: quando tinha mais ou menos seis anos de idade (eu, um perna de pau assumido, peladeiro de praia) meu pai me vestiu de jogador de futebol, de calção, sapato conga, um número sete pintado por ele nas costas e a camisa não podia ser diferente era do... Pantera Negra.
Parabéns, São Raimundo! E como diz o hino do velho Izoca: TU ÉS O MAIOR!!!
Ainda vivemos os ecos do Círio de Nazaré, em Belém. Brevemente, em outras cidades do Estado, como em Santarém, Abaetetuba e outras, também teremos as tradicionais procissões que tanto emocionam o ser humano de todos os credos.
Longe vão os tempos em que eu tocava saxofone na banda de música e nas procissões, na terra mocoronga, sob a batuta eficiente e inigualável de meu pai, Maestro Isoca. Depois começavam as festividades, com arraial, barraca da santa, namoricos na praça, alto-falantes tocando e oferecendo música aos namorados.
Tudo igualzinho em Belém, em Santarém e nas cidades do interior da Amazônia. Ainda em homenagem a Maria de Nazaré, mãe de Jesus, eu (parceiro dele ainda em vida e por escolha dele) e meu pai compusemos a Cantata Nazarena.
Aqui vão alguns trechos:
... AQUELA
BOIÚNA
QUE VAI
SE ARRASTANDO
NO PRÉVIO
ROTEIRO.
E O POVO
SEM ROSTO,
SEM NOME,
SEM PRESSA,
SEM CASTA,
SEM FREIOS.
DESLIZA
SOLENE...
SANCTA MARIA,
ORA PRO NOBIS,
ORA PRO NOBIS!
CABEÇAS
NATIVAS,
CABEÇAS
TURISTAS,
CABEÇAS
CONTRITAS,
CABEÇAS
QUE SUAM,
CABEÇAS SADIAS,
CABEÇAS DOENTES,
CABEÇAS SORRINDO,
CABEÇAS QUE CHORAM...
CABEÇAS DOUTORAS,
CABEÇAS SEM LETRAS,
CABEÇAS DIVERSAS,
CABEÇAS DE OUTUBRO,
CABEÇAS DO POVO
TECENDO ESTE CÍRIO
E SUA SINFONIA...
MESMANDO NA FÉ.
SANCTA MARIA,
... E O POVO INDOMADO
(PARECE O AMAZONAS)
SE FAZ POROROCA...
A MASSA AMBULANTE
FERVILHA E PROSSEGUE...
NOS SONS DESSES HINOS,
NAS VOZES EM PRECE,
HÁ SEMPRE ESPERANÇA
DE MAIS UM MILAGRE...
A FÉ, NESSA GENTE...
NO PUXA E REPUXA
A FORÇA DOS BRAÇOS
NA CORDA RETESA
ALARGA OS CAMINHOS
CERCANDO A BERLINDA
QUE LEVA E PROTEGE....
TEM BANDA DE MÚSICA,
BARRACA DA SANTA,
FOGUETES E LUZES,
NOVENAS NA IGREJA,
NAMORO, ARRAIAL,
COM MUITO BRINQUEDO.
É TEMPO DO PATO,
NUM BOM TUCUPI.
BELÉM, CAPITAL,
PARECE PROVÍNCIA,
E, ASSIM, SE TRANSFORMA
POR CAUSA DA SANTA...
Assistimos recentemente pelos meios de comunicação ao espetáculo estarrecedor dos auto-denominados sem terra a derrubarem sem qualquer escrúpulos milhares de plantações em uma fazenda invadida.
Não negamos e até reconhecemos que a terra está muito mal distribuída neste Brasil que em muitos aspectos ainda tem cheiro e sabor de capitanias hereditárias e de coronelismo nas áreas rurais.
Mas não se pode confundir reivindicação com banditismo. O desespero não pode co-habitar com o desrespeito à lei.
O que é mais estranho é sabermos que o próprio poder público, demagógica e irresponsavelmente tem financiado esses movimentos, na sua maioria compostos, sim, de gente humilde, de gente bem, que deseja terra para trabalhar, mas que, principalmente pela ignorância dos verdadeiros e legítimos cidadãos sem terra, está infelizmente infiltrado e infestado de aproveitadores, de lobos, de agentes a serviço de políticos graúdos, de líderes assalariados por interesses escusos, disto não tenham a menor dúvida.
Isto mancha o movimento e o torna falso e instrumento de espertalhões, perante a opinião pública mais esclarecida e desvirtua a causa, já que, fruto dessa bagunça toda, chega-se até mesmo a não saber mais quem é o verdadeiro sem terra e quem é o delinqüente, o especulador.
O raciocínio é, a primeira vista, simplista, mas não custa repetir: já que esse pessoal está, mesmo, querendo terra para trabalhar, temos no interior da Amazônia, terra de sobra, que poderia ser desbravada, explorada.
E o governo que gasta tanto dinheiro com eles, poderia ser menos populista, demagogo e investir em estradas etc.
Fica a idéia, que não é original e é até simples, mas, válida.
Bom Círio pra quem mora em Belém!... e cuidado com a gripe suína!
A vaidade humana parece não ter limites.
Uma publicação jurídica publicou, recentemente, dois artigos que discutem a utilização do título de DOUTOR por advogados, mesmo que não possuam nem tenham cursado o curso acadêmico de doutorado. Mas essa mania parece que vem se alastrando e parece não atingir apenas os bacharéis em direito.
Segundo consta, desde 2001 o Cofen, Conselho Federal de Enfermagem baixou uma resolução que autoriza os enfermeiros a utilizarem o título de DOUTOR.
Essa designação serviria, segundo eles, para ratificar a autoridade científica do profissional diante dos pacientes.
Quanto aos médicos é notório que sempre exigiram o tratamento de DOUTOR.
Para mim, que sou professor vivo no mundo acadêmico, só é DOUTOR quem realmente cursou um doutorado e tal “autoridade científica” só se consegue com conhecimento, vocação e não com títulos tolos.
Aliás, lamento dizer que seria melhor aprimorar os conhecimentos práticos e científicos de muito doutorzinho que anda por aí a cometer absurdos, já que o título, a vaidade, a empáfia, a burrice não faz de ninguém um DOUTOR, seja de que classe for.
Existem muitos DOUTORES que nem possuem o dito doutorado formal e no entanto são verdadeiros DOUTORES em suas atividades. Cito, de passagem, o medico Fernando Guimarães (exemplo de amor, abnegação e competência na profissão), o inesquecível professor Otávio Mendonça, os compositores Wilson Fonseca e Waldemar Henrique.
Paro aqui para não causar mais ciúmes, que outros mais merecem o elogio e o título. Nenhum desses aí mencionados era ou é “prosa”.
A mania não para por aí. Nos tribunais federais a vaidade também plantou Desembargadores a torto e a direito, embora legalmente, a justeza do epíteto seja bastante discutível, pois na correspondência oriunda do STF são respeitosamente tratados de juízes, título por si mesmo, muitíssimo honroso e suficiente.
Não estou chamando ninguém de corrupto, mas é oportuno finalizar com a frase de Machado de Assis “a vaidade é um princípio de corrupção”.
Recentemente a imprensa noticiou que um italiano, em visita ao nosso país, foi preso por haver beijado sua filha menor na boca e esse ato foi considerado imoral e atentatório à lei e aos bons costumes, embora este último conceito seja bastante elástico. Eu não sei quais foram as intenções dele.
Mas, desde os tempos da casa grande e senzala, conforme se lê em Gilberto Freire, as relações sociais brasileiras, de certo modo, tem se pautado pela conduta com ranços escravocratas, polígamos e machistas, principalmente nos confins dos interiores do país, nas regiões mais afastadas das cidades grandes, onde ainda vigora, quer queiramos ou não, o patriarcalismo, como regra.
Esta é uma herança do Brasil colonial. Era comum meninotas e crianças serem abusadas sexualmente pelos senhores de escravos, pelos coronéis e até os dias atuais ainda existem pedófilos que dão boas quantias, pagando a pais, mães despudorados ou filhos da miséria, por um (perdão pela palavra) cabaço.
Em muitas regiões brasileiras as empregadas domésticas de qualquer faixa etária são tradicionalmente consideradas como objeto de desejo e utilização sexual.
Nos tempos atuais temos o conhecido Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, que realmente nos trouxe avanços enormes em defesa dessa parcela indefesa da sociedade.
Quem conhece essa lei, no entanto, pode observar que ali se fazem presentes em maior quantidade normas de caráter punitivo do que educativo, se bem que a primeira educação deveria ser dada pela família, cujos valores praticamente não existem em certas camadas mais baixas do povo, por fatores que vêm de longe e nos levam, outra vez, à época do mandonismo escravocrata.
O abuso sexual de crianças tem sido observado principalmente nas classes mais abastadas, onde a posição social, o dinheiro, o “status” facilita muito e banaliza as taras.
Não podemos esquecer o que todos sabemos: o crime só existe onde houver quem o alimente. No caso, cafetinas, certo tipo de hotel e turismo, pais e mães paupérrimos e sem qualquer valor ético ou moral (nunca aprenderam o que é isso, em verdade) são os principais fornecedores desse gado novo que vai para o abate na mais tenra idade e as feridas ficam na alma, indelevelmente.
Combatamos a prostituição infantil, mas, enfrentemos, também, a miséria, o analfabetismo, feridas putrefatas no organismo brasileiro, que são as principais raízes desse pus nacional.
Não é a minha especialidade comentar fatos políticos.
Mas esta semana aconteceu um episódio que me deixou com a pulga atrás da orelha.
Aprendi, por necessidade profissional, que é necessário muitas vezes rejeitar noventa e nove verdades a aceitar uma mentira.
Em determinadas situações, dizem os mentirosos, a mentira facilita a vida. Todo mundo lembra aquele personagem do programa global que diz a verdade o tempo todo e se torna inconveniente e até mesmo temido.
Os americanos chamam essa "forma elaborada" de comunicação de "mentiras brancas".
Aqueles que sempre dizem a verdade são considerados irremediavelmente ingênuos ou, na gíria, “verdadeiras malas”.
Além disso, eles facilmente ganham inimigos. Calcula-se que uma mentira vem aos nossos lábios cerca de 200 vezes por dia, em média uma a cada cinco minutos.
Não acreditam? Então comecem a observar.
Ou seja, o que vigora, mesmo, é o famoso princípio do “me engana que eu gosto”.
Quem já não disse para outra pessoa: “Você está com uma aparência excelente”, quando na verdade, o interlocutor está em estado físico lastimável.
Ou então, ao celular, dentro da sala do escritório: estou na rua, quando chegar lá, te ligo. De certa forma, por incrível que pareça, em certas circunstâncias a mentira serve para atenuar impactos, para evitar brigas, para livrar de situações embaraçosas etc, neste nosso mundinho hipócrita.
Só não concordo com a mentira deslavada, aquela irresponsável, insensata, que prejudica e pode até mesmo acabar com uma vida.
Ontem vimos o respeitável Senador Suplicy subir ao palanque, com a voz embargada, em gestos que denotavam grande indignação, acenar o cartão vermelho para cima do senil e esperto presidente do Senado.
Não acredito na sinceridade desse tal cartão vermelho. O ilustre parlamentar, no meu entender, apesar de seu currículo invejável, ao “expulsar de campo” o senhor Sarney, em verdade queria e quer causar um impacto na mídia que possa disfarçar a grande perda de seu partido com a saída da Senadora Marina Silva para o PV.
Acho que, de certa forma, o tiro saiu pela culatra, quando um prosaico suco de maracujá foi servido e o presidente da sessão falou que estava com o apito na boca e encerrou o jogo, que, em verdade, estava mesmo sendo disputado mais para a platéia do que em busca de um resultado positivo e convincente.
Um verdadeiro gol contra, que o Senador Suplicy, por seu passado, não merece tomar. Para encerrar: permitam os leitores que eu divulgue um fato para mim auspicioso. Acabo de ser homenageado com o cargo de SÓCIO EMÉRITO da Associação Brasileira de Jornalistas, entidade nacional que acaba de ser fundada em Brasília para congregar jornalistas de todo o país.
É que meu livro “Jornalistas sem Diploma” foi o ponta pé inicial (já que estamos falando em linguagem futebolística) para a decisão do Supremo, contra a exigência do diploma para o jornalista. Divido a comenda com o meu Estado do Pará.
Quando o perigoso vírus da conhecida gripe suína se espalhou pelo planeta eis que um remédio quase miraculoso aparece. É o conhecido Tamiflu que, parece, já deve estar em falta nas farmácias ou deve estar escondido para que os especuladores possam faturar sempre mais à custa das dores alheias.
Uma coisa que pouquíssimos lembram é que um dos donos de um dos laboratórios (Gilead) que possuem a licença para fabricação do remédio é exatamente o senhor Donald Rumsfield, ex secretário de defesa do governo Bush, nos Estados Unidos.
A princípio nada suspeito parece estar acontecendo. Entretanto, lembro que este senhor, quando era assessor de Bush determinou que as tropas no Iraque fossem medicadas com o Tamiflu e o governo americano gastou, na época, perto de TRÊS BILHÕES de dólares comprando o remédio do senhor Rumsfield para curar gripe aviária.
Não quero, aqui, fazer um exercício de ficção científica, mas com esse pessoal não se brinca, não.
É que Donald Rumsfeld, segundo informa a imprensa americana favorável a Bush, quando no governo americano nada fez, não teve influência alguma para a adoção do Tamiflu para prevenir a pandemia de gripe aviária que na época apavorava o mundo inteiro.
Você acredita nisso? Claro que não, pois ele deve ter faturado os tubos. Agora, com a gripe suína (não é demais tentar concluir que pode se tratar de vírus fabricado em laboratório por mentes ambiciosas e perversas).
Ora, se ele mentiu para o mundo todo dizendo que o Iraque possuía armas de destruição em massa (depois ficou comprovado que isso era pretexto para invadir o país), quem acredita quando dizem que ele nada tem a ver, de certa maneira, com o alastramento da gripe suína e com as vendas do Tamiflu?
Tire suas conclusões, leitor.
Estamos em época de férias. A tendência é que sejam procurados os balneários. Nesta época, as pessoas, de todas as classes sociais, parecem até aves de arribação.
Saem em bandos no rumo das praias, das piscinas, do sol quente, dos biquínis e das bebidas geladas.
É uma liberdade geral. Vamos todos curtir nossa liberdade provisória, já que durante o ano todo ficamos encarcerados dentro de casa com medo da bandidagem.
Um compadre meu, do interior, o “seu” Antônio Tamaquaré, um sujeito meio paradão e abestado, encontrou comigo, me brindou com uma garrafa de andiroba e, papo vai, papo vem, chegou a me dizer que está quase virando bandido, pra ver se tem mais liberdade, mais regalia.
Eu disse: Não faça isso, compadre.
E ele me sentencia, bem atualizado, com toda a sua espontaneidade de homem interiorano: Com um terço da pena cumprida o bandidão consegue ficar em liberdade, graças à ação dos advogados. Hoje em dia ninguém mais fica 30 anos na cadeia, mesmo praticando os tais crimes hediondos, graças a essa tal generosidade das leis brasileiras.
Bandido pode sair da cadeia no dias das mães, no natal e em outros dias do ano.
Nós temos que ficar em casa, de portas e janelas gradeadas.
Bandido tem direito até a visita íntima, podendo ter mulher para manter relação sexual.
Pra nós aqui do lado de fora, tá difícil a coisa.
Bandido faz rebelião, quando a comida não está gostosa, o governo põe o rabo entre as pernas e bota comidinha boa lá para eles.
Se a gente aqui de fora quiser comer bem vai ter que trabalhar duro.
Bandido queima colchões e o governo providencia outros, novos, imediatamente, para que eles não durmam no chão.
Nós temos que dormir na rede suja, rodeada de carapanãs.
Bandido tem sempre a proteção da Comissão dos Direitos Humanos que só existe para eles...
Bandido pode atirar e matar policial, mas se policial atirar e matar bandido sofre toda a pressão da imprensa e da sociedade.
E nós não podemos andar com um mísero canivetinho no bolso.
Bandido rico tem dinheiro para contratar advogado que anda de carro importado pra não ir para a cadeia.
Bandido pobre, por não ter dinheiro, resolve logo praticar um crime bem pavoroso, pra sair na primeira página do jornal e na televisão, porque tem certeza de que sempre vai aparecer um advogado, que gosta de estar em evidência, que se oferecerá para defendê-lo.
Quando eu já ia saindo, ele me chamou e me deu de presente um tanto de piracuí feito de acari, o melhor que tem.
Agradeci e voltei pra casa pensando nas idéias desse meu compadre.
E não é que ele tem razão?
O Supremo Tribunal Federal acaba de confirmar plenamente a tese de meu livro “Jornalistas sem Diploma”, publicado em 1995, com prefácio do então Ministro Presidente do TST, Orlando Costa.
Tive a honra e a perspicácia de ser o primeiro juiz, no Brasil, a decidir contra a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista, salvo determinadas atividades dentro da carreira que devem, sim, passar pelo curso superior.
Isto é notícia em diversas partes do território pátrio.
Mas se tenho um justo orgulho, quero dizer que cumpri com minha missão de interpretar a lei e agora devo recolher-me com a consciência do dever cumprido perante a sociedade, e nada mais.
O juiz não deve procurar, de maneira indiscriminada, os holofotes e foi o que sempre fiz enquanto na ativa.
Mas o que quero destacar aqui, mais uma vez, é o imenso e inimaginável valor que a liberdade de imprensa possui para a consolidação da liberdade.
A história nos tem mostrado que uma das primeiras coisas que os ditadores de plantão fazem é cercear a imprensa, é tentar amordaçar os jornalistas.
Com profunda tristeza vemos de novo isto acontecendo no Irã, quando a internet, as comunicações telefônicas, os jornais e os próprios profissionais são censurados, expulsos para que o mundo não tome conhecimento das barbaridades.
Mas a história nos tem mostrado, também, que, mais dia menos dia, tudo vem à tone e os salvadores da pátria, os que exercem mandatos em seu favor e não em prol do povo são desmascarados.
Como bem sabe o leitor, esses que se autodenominam donos do povo, como aconteceu na Alemanha nazista, na China, vem acontecendo em Cuba, no Irã e em outras partes do mundo, ou utilizam a imprensa para fazer promoção pessoal ou do regime ou consideram perniciosos os jornais, revistas, televisões.
O mundo que entrou agora no limiar do século vinte e um não mais se conforma com as consciências algmadas, com portas fechadas, com escuridões e coisas do gênero.
E a imprensa tem grande responsabilidade e importância no mundo melhor que todos queremos, pois grita, denuncia e por bem ou por mal, de uma maneira ou de outra, derruba ou enfraquece os grandes tiranos ou tiranetes que passam à história com triste memória.
É sabido que a imprensa coloca no poder e também tira do poder.
Daí que a necessária liberdade deve ser auto-fiscalizada para que não degenere e não exagere, pois, afinal de contas, quer queiramos ou não ela é, no dizer do Lorde Macaulay, o quarto poder.
Recentemente a imprensa divulgou que a ONU fez uma pesquisa de opinião popular no Brasil, onde pronunciaram milhões de pessoas.
Foi perguntado quais os itens mais importantes para termos uma qualidade de vida melhor no país. O resultado não foi surpresa. A maioria dos entrevistados respondeu que estamos precisando de EDUCAÇÃO e de SEGURANÇA.
Há necessidade de se encarar e de se trabalhar na resolução ou melhoria desses problemas graves, sem fazer uso político dos mesmos, o que parece ser uma utopia, pois isso vai tradicional e inevitavelmente acontecer, mesmo.
Educação, em primeiro lugar, na família, onde os valores positivos estão precisando, e muito, serem transmitidos às novas gerações, tais como integridade, honestidade, respeito às leis, ao ser humano, aos logradouros públicos e aos animais, civilidade no trânsito, cuidado com o meio ambiente do planeta em que habitamos, melhoria da educação formal nas escolas de todos os níveis etc.
Citamos apenas o mínimo necessário, inclusive a sociedade deve começar a se preocupar com a qualidade do ensino que está sendo ministrado nas escolas, desde o jardim da infância até os cursos superiores, deve, também, procurar um meio de dar educação aos pais permissivos de todas as faixas sociais, principalmente aos supostamente mais esclarecidos da classe média alta para quem, uma leve punição aos seus rebentos rebeldes os fará ficar recalcados, mas, os tornará, com a permissividade, com certeza, maus cidadãos.
Quanto à segurança esta, como já é notório, é um item que mais necessita de providências urgentes por parte das autoridades públicas, não só do Estado como do União, também.
Ao lado dos debates sobre o que se fazer em matéria de segurança pública deveria ocorrer uma discussão mais ampla sobre as raízes da criminalidade no Brasil, e os remédios para extirpá-las.
Um dos fatores mais corriqueiros é a falta de emprego, a falta de chances para o grosso da população frequentar escolas e – vejam a conexão do tema – ter chance de ter educação nos moldes referidos linhas acima.
Pivetes, traficantes e coisas do gênero são produto da leniência e do desinteresse público pelo problema da fertilidade das mães paupérrimas, pela ineficiência do combate às drogas. Ou seja, a ferida necrosou, ficou cheia de pus e agora está difícil de ser curada.
A população recorre, na falta do amparo estatal, à segurança paralela dos flanelinhas, das empresas de segurança, dos famosos vigias noturnos (geralmente idosos, coitados, com um mero pedaço de pau na mão, um radinho no ouvido e muito sono).
Quando é que o país, como um todo, vai começar dar a devida importância aos temas conexos da educação e da segurança?
Estamos vesgos, cegos ou indiferentes? Não é possível que os olhos da ONU, alienígenas, enxerguem mais do que os nossos.
Desde criança sempre gostei de futebol. Quando morava em Santarém promovia, junto com, meus colegas disputadíssimos campeonatos de celotex (futebol de botão), meu pai era assinante da Manchete Esportiva, sempre escutei futebol pelas rádios do Rio de janeiro e São Paulo (raramente a Marajoara e a Clube chegavam na Pérola do Tapajós) e fui um peladeiro razoável nas praias tapajônicas. Por isso, creio que tenho conhecimento suficiente para falar do assunto.
Longe se vão os tempos em que os dois times grandes da capital paraense disputavam o campeonato com aquelas “galinhas mortas”, os times pequenos, dos bairros da cidade: Armazenador, Liberato de Castro, Combatentes, Avante e outros.
Sendo os dois clubes considerados grandes de melhor condição financeira, mandavam buscar bons reforços (a bem da verdade, muita sucata, também) do sul do país e ganhavam os campeonatos ditos “paraenses”, que, em realiadade eram campeonatos belemenses.
A Tuna, sempre fechada, foi definhando e hoje apequenou-se cada vez mais, em termos futebolísticos, pois se nunca teve torcida agora menos tem, ainda.
O melhor a fazer é dedicar-se aos esportes olímpicos e viver de saudade dos tempos do Macaco, Indio, Cacetão e outros craques.
Vejo o sucesso do São Raimundo e do Águia, de uma maneira bem diferente, realista e desapaixonada.
Aliás, o pantera mocorongo é detentor de uma grande tradição no futebol da Amazônia e tem experiência em ganhar títulos, juntamente com o São Francisco.
Ao mesmo tempo em que os dois considerados grandes da capital ameaçam perder ou pelo menos ter seus reinados ameaçados pelas potências futebolísticas do interior, vejo que os times santarenos e marabaenses, são um símbolo.
Eles simbolizam o progresso do Pará, como um todo, quer queiramos ou não. Longe já vão os tempos em que Belém era uma ilha isolada e cercada de cidades minúsculas e desimportantes.
Hoje o Pará cresceu. E a subida dos times interioranos é um sintoma e uma amostra bem clara disso. Podem crer.
O progresso e o dinheiro vão chegando aos poucos e isso se reflete, também, nos campos de futebol.
Remistas e bicolores que se cuidem, que vem chumbo grosso por aí.
Vi com bastante tristeza e desapontamento o descuido de dois Ministros da nossa mais elevada Corte de Justiça, quando bateram boca em plena audiência, parecendo dois colegiais.
Aprendi, no exercício da Magistratura, que juízes, entre si e entre advogados jamais devem partir para o bate boca gratuito, já que do alto de sua posição o Juiz deve ser e muitas vezes é, mesmo, a última esperança dos dos desvalidos, dos injustiçados, da ordem e da moralidade pública. Que Calamandrei nos diga a verdade.
Com um certo exagero o juiz Lindhurst, da Suprema Corte dos E.U.A., dizia que o magistrado deve ser honesto, habilidoso e corajoso. E acrescentava: Se tiver algum conhecimento jurídico, ajuda muito.
Aí eu me pergunto: de que adianta ao magistrado ser sabichão em Direito, possuir todos os títulos de doutorados e coisas do gênero que lapidam o currículo e não a alma?
O que a sociedade espera de um juiz é que ele, no mínimo, tenha coerência, saiba ter postura pública e não fique expondo perante todos a sua sede por supremacias, por gloríolas, por vaidades excessivas.
Por outro lado isso serve para mostrar que os dois respeitáveis Magistrados, ao contrário do que muitos tentam passar assim que assumem a Toga, são gente de carne e osso, como eu e você, sujeitos aos pecadilhos, aos escorregões prosaicos que nossa condição humana nos expõe no dia a dia.
Melhor que assim seja, que parte do véu tenha sido rasgado para que a sociedade saiba que está sendo julgada por homens e não por vestais, por cidadãos que se superam quando estão no exercício de suas missões, já que um juiz cumpridor de seus deveres merece sempre o nosso apoio, o nosso respeito, a nossa esperança, pois de suas suas mãos sairá o consolo dos aflitos, a reposição de direitos e a ordem pública na sociedade.
Um juiz, pelo simples fato de receber dos cidadãos pagadores de impostos a missão e o dever de decidir contendas, não se despe de sua condição humana, não se transforma em anjo ou santo assim sem mais nem menos.
Que a sociedade, que olha com tanta expectativa para os órgãos do Judiciário, saiba que ali está gente como nós, momentaneamente investida de uma função, o que não torna o investido nem melhor e nem pior do que o comum dos mortais, embora, é verdade, uma minoria pense o contrário e no fim da carreira se decepcione quando não é mais cumprimentado nem pelo porteiro do Tribunal, como já vi lamentavelmente acontecer.
Os profetas do apocalípse, os debochados, os interessados na desordem para poderem lançar seus tentáculos sórdidos sobre a sociedade, por certo devem estar com o sorriso cínico e condenatório. Mas após o incidente o mundo não vai acabar e o Judiciário brasileiro vai prosseguir enfrentando as procelas que sempre venceu.
Os Ministros “brigões” são gente, pessoal. Melhor não condená-los pelo deslize e nem canonizá-los no futuro. A sociedade agradece.
jwmalheiros@hotmail.com
Recentemente as televisões de todo o país mostraram os fatos deprimentes acontecidos na capital do Pará, quando em matilha, adolescentes predadores atacavam sem dó nem piedade os traseuntes, os motoristas que passavam por uma das movimentadas avenidas de Belém.
É deprimente constatar que essas pessoas ainda na idade da formação do caráter sejam lançadas na rua como verdadeiros chacais em cima da carniça, ou seja, sobre nós os cidadãos que pagamos nossos caros impostos.
É muito fácil acusar este ou aquele governo pelo que está acontecendo. Mas eu não penso assim. Somos todos nós, culpados.
A sociedade, principalmente sua classe dirigente trata com verdadeiro desprezo essas pessoas que não nasceram com sorte.
Até mesmo nas classes consideradas mais abastadas, mais esclarecidas já estamos acostumados a ver a droga se alastrando, a falta de respeito por pais, irmãos, professores, colegas.
Hoje em dia parece que todo mundo quer resolver tudo na porrada.
As televisões não se cansam de passar programas violentos para satisfazer o instinto até certo ponto assassino que se alastra na sociedade de hoje.
Esses chacais não são vilões, não senhor. São, antes de tudo. vítimas do sistema perverso da divisão de classes que ainda vemos no Brasil.
E já que estamos em época de novela indiana, são párias, são intocáveis que foram paridos no mundo e nunca receberam orientação sobre aquilo que todos nós acreditamos serem os melhores valores.
Educação cristã, educação cívica, educação escolar, jamais passou na vida desses pobres chacais.
Quando falo em chacais não é por preconceito.
É que a metáfora se encaixa muito bem nesses nossos irmãos infelizes.
A Santarém de hoje não é mais a pacata cidade da época em que eu, Luis Otávio Campos, Machadinho, Armando Soares, Expedito Toscano e tantos outros, fazíamos serenata à luz da lua.
Agora, quem se aventurar a sonhar e a cantar no luar, certamente corre o risco de ser caçado pelos chacais, filhos da miséria, da desorientação familiar e do abandono.
Até quantas gerações para frente sofreremos esse estado de coisas que, ao que parece, nesta geração atual e na geração dos filhos deles jamais acontecerá a solução.
Meditemos. E que os nossos homens públicos façam vir o exemplo de cima.
Educação e comida neles!
E que saiamos do comodismo da nossa poltrona onde muitas vezes sentamos com um copo de uísque a lamentar os “marginais”.
Pensem nisso, amigos!
Os paramentos ritualísticos dos padres ficavam roxos. As imagens dos santos, dentro das igrejas, eram escondidas por detrás de panos roxos, o que dava um aspecto de mistério e de pavor.
Na sexta santa o som das matracas parecia lúgubre, como se cheirasse a morte e a estupidez, dentro dos templos e nas vias públicas.
Em Santarém eu cantava no Coro da Matriz o cantochão, as músicas de Bach e Palestrina e assistia as inacabáveis cerimônias do lava-pés e as celebrações da sexta feira que me enchiam a imaginação com imagens escabrosas de morte e de medo do castigo divino, ainda mais que eram rezadas e cantadas em Latim.
Minha vó Aninhas gostava de frequentar as Vias Sacras. Quando chegava em casa ela vinha chorosa, em silêncio, contrita.
Na quinta feira santa e na sexta da paixão as pessoas ficavam com cara de velório, não riam, quase nem conversavam nem saíam de casa, não comiam carne, pois tudo o que fizessem era pecado. Ninguém reservava com antecedência, nas agências de viagem, as excursões para as praias, onde a bebida, os bacanais e a luxúria profanam com naturalidade tudo o que outrora era ou parecia ser sagrado, intocável.
No dia da paixão as crianças não podiam fazer barulho, de maneira nenhuma. Tínhamos que falar baixo, não podíamos jogar bola, nem ligar o rádio, nem rir ou chorar. Quem ousasse desobedecer a essa férrea disciplina era castigado no sábado de aleluia.
Tudo era preparado para nos acachapar com mais do que respeito, pavor.
Diziam que na sexta feira santa uma procissão de almas desfilava pelas ruas da cidade e ninguém ousava sair de casa e nem sequer abrir as janelas.
Era uma religiosidade doentia, agourenta, psicótica, que não distinguia entre criancinhas e velhos para ameaçar com o fogo do inferno ao menor deslize.
O mais estranho de tudo isso é que o povo assumia essa neurose toda e parecia gostar de ser lambado, humilhado, repreendido.
Ainda me recordo que todo ano, na frente da casa de meu tio Miguel, era montado um altar onde a procissão do encontro sempre parava para rezar e escutar o lindo canto da Verônica.
Todos ficavam emocionados quando ela cantava e exibia em público o Santo Sudário com a face do cristo sofredor.
Mas o tempo passou, as mentes mudaram, ficaram mais esclarecidas. Quando comecei a ler a Bíblia, baseado em pesquisas e não no que todo mundo diz, fiquei estarrecido e constatei que muitas das minhas crenças tinham que ser refeitas.
Descobri que Maria Madalena nunca foi adúltera e nem prostituta (Ver Evangelho. Nem Lucas 7:38 ou João 8.3 a 11 sequer mencionam qualquer nome de pessoa, ali), que Moisés recebeu nove e não dez mandamentos (Êxodo, 20), que Adão é um mero símbolo, que a cristandade viveu 786 anos sem imagens e não encontrei o nome da Verônica etc.
A partir daí passei a me sentir mais liberto, como um prisioneiro que acaba de cumprir uma pena injusta, por erro judiciário, e estou mais feliz.
Estou fazendo faxina nos meus arquivos. A gente começa a guardar coisas e mais coisas que com o tempo algumas podem se tornar inúteis.
A maioria dos papéis velhos são como o rancor. Enquanto estão novos pensamos que serve, guardamos na gaveta, nos escaninhos do coração. Quando o tempo passa, vemos que o papel guardado com tanta avidez não passa de lixo, de inutilidade. Temos que limpar as estantes, os baús da alma.
Remexendo a papelada encontrei alguns exemplares do “O Jornal de Santarém”, que heroicamente era editado pelo Sr. Arbelo Guimarães.
Cheguei a me espantar quando vi que eu já escrevia naquele jornal desde 1965!
Portanto, descobri que tenho 44 aninhos de militância na imprensa. Digo isto orgulhoso, sim. Não aquele sentimento egoísta que faz o ser humano pensar que é melhor do que seu semelhante, mas aquela sensação de que já construímos alguma coisa.
A cidade de Santarém na época em que esse jornal circulava todo sábado ainda era menor do que é hoje.
Apesar de ser feito com linotipos, aquele tipo de impressão em que você coloca letrinha por letrinha, até formar a palavra inteira.
Conheci bem esse tipo de impressora no próprio Jornal de Santarém e no Colégio Santa Clara. Fazem parte da história.
No exemplar de número 1.358, de 14 de setembro de 1968 (lembram-se do que aconteceu em 1968, em nossa terra? Recordam os senhores do AI-5? Lembram-se do livro do jornalista Zuenir Ventura “1968, o ano que não terminou”), época em que a cidade andava bastante explosiva com a política e eu no verdor da juventude, escrevi o que agora resumo:
“CARTA ABERTA AO EMIR BEMERGUY
Parabéns pelo seu excelente artigo, publicado no dia 6. O senhor sabe e todos nós temos conhecimento que a situação política da cidade não é das melhores. É realmente constrangedora. Procura-se por todas as maneiras ofuscar o brilho da Pérola do Tapajós.
No momento preciso, sua voz foi erguida em defesa da sociedade, para que, no futuro, apesar dos pesares, não passe este momento à história como um momento carecedor de homens o senhor e outros mais que têm o denodo de levantar a voz em defesa de nossa terra.
Por analogia, poderíamos afirmar que Santarém está cheia de capoeiristas, soezes, vez por outra, em atrapalhar-lhe os passos.
Os lutadores de capoeira praticam esse esporte por mero diletantismo. Os NOSSOS capoeiristas abrigam em si um instinto MATRICIDA (embora nem todos sejam oriundos da terra), pois, em benefício próprio procuram à guisa de vampiros, sugar a energia vital da terra-mãe: O progresso.
Reconhecida capacidade moral e intelectual deveria ser o mínimo requisito exigido de um homem para chegar à edilidade. Sem isso, expõe-se a vir a ser um parasita, isto é, desprovido de auto-senso de discernimento, incapaz, portanto, de servir à coletividade, não refletindo, em hipótese alguma o pensamento do povo do qual teria que ser um lídimo representante.
Como foi ressaltado em seu artigo, necessário se faz procurar com uma lanterna, como o filósofo grego, um homem capaz em nossa cidade, mesmo entre os homens públicos.
Ainda que suplantados numericamente pelos de má estirpe, existem entre nossos políticos elementos probos e à altura de um bom desempenho de sua missão.
Contudo, a preponderância daqueles permite que venha à tona a licenciosidade, não mais às secretas, mas à vista de todos, numa humilhante afronta à população passiva e num visível desafio aos homens de bem desta terra.
Fique sabendo, Emir, que não está clamando no deserto, fazendo jus a um lugar no rol dos homens de bem, citado em seu artigo, mercê de sua atuação como o porta-voz daqueles que desejam uma “triunfal consagração de um porvir maravilhoso” para nossa cidade.”
Já se tornou lugar comum afirmarmos que hoje em dia os bandidos estão soltos nas ruas e nós, cidadãos que procuramos viver decentemente, estamos em casa, trancafiados em grades, cadeados, alarmes eletrônicos etc.
Não podemos mais deixar nossos carros na rua que logo vem a chantagem dos flanelinhas, que não tomam conta de nada, mas, no mínimo riscam nossos carros se não cedermos à chantagem para pagar o pedágio exigido por eles.
Bons tempos aqueles, na década de 1960, quando eu trabalhei no Banco do Brasil, em Santarém. Era a época das famosas e disputadas “viagens de numerário”. Quando estava “sobrando” dinheiro nos cofres do Banco, era obrigatório levarmos o excedente para Belém.
Viajamos para passar geralmente dois dias, carregando o dinheiro e carregados de pedidos de compras na capital.
O numerário era acondicionado em grandes sacos de lona e vinha no bagageiro do avião da linha (VASP, VARIG, PTA).
Quando chegávamos no aeroporto de Belém pegávamos um prosaico taxi (!!!). Geralmente o tamanho das sacas não cabia no bagageiro e a metade vinha de fora, mesmo, desfilando pelas ruas, na maior sem cerimônia.
Nós nos sentíamos seguros. Levávamos apenas um revólver 32, que era guardado nas malas, descarregado.
Imaginem o percurso do Aeroporto até o Banco do Brasil da Presidente Vargas, na capital paraense. Pois é, vínhamos tranquilos, conversando com o taxista e ninguém nos molestava.
Imaginem, agora, se fizermos a mesma coisa neste ano de 2009.
Não conseguiríamos nem sair do avião, na pista de pouso. Certamente seríamos assassinados e os facínoras teriam sumido com o dinheiro.
Lembro-me, agora, de citar citar a obra do escritor francês Albert Camus, intitulada "A Peste". Vemos ali a descrição de um vilarejo, que é assolado por uma epidemia de determinada doença incurável para a época. Descreve em pormenores o pânico causado pelas mortes ocorridas, desde crianças até os mais velhos daquela localidade. Porém, aos poucos os moradores foram tornando-se imunes ao pânico, isto é, não mais se impressionavam com a quantidade enorme de óbitos.
A desgraça, a violência tornaram-se rotina, e hora em dia, no mundo todo, viraram sobremesa, que sorvemos com a televisão ligada depois do almoço para assistir o circo de horrores. Tornou-se “normal”... ninguém mais parece se importar. Não nos comovemos mais.
Não dá para deixar um policial na porta de cada casa. A polícia, por mais que se esforce, parece estar enxugando gelo. Quanto mais trabalha, mais aumenta a marginalidade.
No fundo, sabemos que a violência, não é somente caso de polícia. É um caso crônico de falta de investimentos convenientes no social, no educacional, no esclarecimento sobre o perigo das drogas, entre outros fatores.
Em grande parte a violência que assola nossas cidades não é apenas filha da miséria, já que, no caso dos entorpecentes, granfinos endinheirados e apodrecidos pelo vício são uma das grandes colunas que sustentam esse caldeirão fervente que se espalha pela nação.
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Afirma-se, com toda a razão, que hoje em dia o que não sai publicado na imprensa, não existe. Então, com a finalidade de deixar gravado para o futuro, dou a público, agora, aproveitando a ocasião, um fato que merece ser mencionado na biografia do maestro.
Neste vinte e quatro de março o Maestro Wilson Fonseca (Izoca) completou sete anos de falecido. No início do ano passado um grupo de interessados manifestou a vontade de conhecer melhor a ópera do compositor, que tem libreto e arranjo orquestral de minha autoria, pois Izoca, ao encerrar essa obra, infelizmente não teve mais condições físicas de fazer a orquestração.
Em uma das reuniões, um fato incomum aconteceu. Veja o texto da declaração que tenho em meu poder:
“DECLARAMOS que no mês de abril/2008 estivemos reunidos, uma tarde, na residência de José Wilson Malheiros da Fonseca, em Belém Pa., mais precisamente da dependência que ele denomina de “gabinete”. Passamos a tarde vendo e escutando as partituras da ópera Vitória Régia, um Amor Cabano, música de Wilson Fonseca (Izoca).
Estavam presentes, entre outras pessoas, Célia Maracajá, Luiz Arnaldo, Maestro Martinho Lutero (brasileiro, que vive na Europa), José Wilson e sua esposa Damea.
Quando acabamos de ver, escutar e comentar o libreto e as partituras, mais ou menos pelas seis da tarde, o computador foi totalmente desligado. Não havia, na casa, mais nenhum aparelho eletrônico ligado, nem rádio, nem televisão, aparelho reprodutor de CD, cassete etc, estando também a máquina filmadora da Célia (que nem foi usada nessa ocasião), desligada. Tudo isto foi verificado minuciosamente pelos presentes.
Em dado momento começamos a escutar, dentro do gabinete, com grande nitidez e com razoável volume, uma voz de tenor operístico a cantar uma ária que não conseguimos identificar.
Ao chegarmos perto da “voz” sentíamos como se estivéssemos perto do “cantor”. Todos ficaram perplexos.
Esse fenômeno durou mais ou menos meia hora. A sensação era de que alguém, que não podíamos ver (apenas escutar) estava ali bem próximo de nós, cantando, mesmo.
Atestamos que o acima relatado é verdade.
Assinam o documento como testemunhas presenciais (tudo reconhecido em cartório): Luiz Arnaldo Dias Campos, produtor cultural, cineasta. Célia Maracajá, produtora cultural, atriz. Damea Gorayeb S. Fonseca, professora”.
A coincidência se repete: no início do século vinte, como atesta bibliografia abundante, um maestro e professor recém chegado da Itália também assistia, em companhia de pessoas ilustres da sociedade da época, os fenômenos espirituais que ocorriam em Belém na casa do casal Eurípedes e Ana Prado.
O maestro era Ettore Bosio, que inclusive bateu algumas fotos que estão na internet. Fica, portanto, registrado o fato. Onde não se pode criticar, todos os elogios são suspeitos. Fique à vontade para emitir sua opinião sobre o fato.
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O gol mais espetacular da carreira do Pelé não foi gravado. Restou-nos saborear a dramatização feita com um jogador juvenil do Fluminense carioca e colocada num filme.
Vejam bem, estávamos em plena década de 1960! Uma seleção brasileira olímpica estava em Santarém. Era coisa de outro mundo.
E foi o que aconteceu, numa tarde memorável, ali no velho estádio Aderbal Tapajós Caetano Corrêa, depois denominado Elinaldo Barbosa.
Para começar o espetáculo, na entrada encontro o famoso Caixa d’Água de porre, querendo entrar sem pagar, de qualquer maneira e já ameaçando criar caso.
Fui à bilheteria, falei com o Senhor Boanerges Sena e consegui entrada gratuita para esse amigo de infância do meu pai.
Ele entrou abraçado comigo, falando, gesticulando e cuspindo. Pediu que eu pagasse um “rebráulio”, o refresco preparado e vendido pelo famoso Bráulio, que tinha freguesia bastante concorrida.
(Aliás, para não perder a oportunidade, hoje alguém sabe o segredo das fórmulas do “rebráulio” e do Paumary?).
Cumprimentei o “Seu Bandeira” aquele velhote do banquinho famoso e fiquei sentado na “arquibancada nova”, aquela que dava para a sede dos Estivadores, na Avenida São Sebastião e assisti tudo numa posição privilegiadíssima. À minha direita o Carlos Meschede, à esquerda o médico Alberto Serruya.
Em campo, além do Manoel Maria (que havia pertencido ao S. Raimundo, Tuna, de Belém e agora jogava no Santos com Pelé), Ferreti (centro-avante revelação do Botafogo), Cezar (centro avante do Palmeiras e que jogou na seleção principal) e outros mais que pontificaram como craques do futebol nacional.
Na defesa santarena, Inacinho, Piraculhão e companhia barravam todas as investidas, pois não brincavam em serviço.
E a seleção atacava, adiantava o time para tentar fazer gol e a defesa do São Raimundo agüentando o tranco.
Não sei, não. Até hoje desconfio do lance. Manoel Maria, que como eu disse, havia jogado no São Raimundo e era amigo do Dr. Martins, prefeito e patrocinador do evento, perdeu um gol, depois de haver driblado a defesa, o goleiro, ficando, de frente, a meio metro (repito: meio metro!) da trave vazia. Chutou por cima do travessão. A torcida do São Raimundo até aplaudiu.
Em certo momento da partida, Ataualpa Rebelo teve a inspiração e o pressentimento do gênio. Pegou a bola no meio do campo, veio costurando aqui e ali, driblando pra lá e pra cá, entortando uns e outros, enquanto os varapaus da defesa do selecionado iam recuando ou escorregando no gramado, abrindo caminho para o artilheiro.
“Que nem pitiú na areia (como ele diz)”, invadiu a grande área, enganou o goleiro e entrou com bola e tudo: GOOOOLLL!!!!!!!
Sem exagero, um lance assim eu só vi muitos anos depois, quando o Maradona driblou todo mundo e se vingou da Inglaterra, na Copa do Mundo.
Naquele momento esse gol do Ataualpa foi um solo de virtuose, um símbolo, um dos momentos mais sagrados do nosso regionalismo, a versão cabocla da vitória de Davi sobre Golias.
Com certeza as ninfas do Tapajós, os uirapurus, bem-te-vis, rouxinóis e outros pássaros, o curupira, a matinta-perêra da mata ao redor da cidade compuseram ao entardecer daquele dia de glória, mais uma sinfonia para saudar esse gol de placa.
Quem viu, viu. Quem não viu fica chupando manga verde.
Pena que a Caçula torcia pelo São Francisco e certamente não estava lá para incentivar o time com palavrões cabeludos e brindar a vitória. Mas isto já é outra estória.
O Carnaval acabou. Saudade imensa dos carnavais da minha juventude, quando eu ainda tocava saxofone, gostava de pular nos salões e as marchinhas de duplo sentido eram inocentemente cantadas, quando os blocos de sujo andavam pelas ruas vestidos de “mascarado fobó” e meu pai comprava máscaras para nós ali no Café Chic, em Santarém.
Sem saudosismos, o Carnaval autêntico de hoje é um ato de resistência contra a indústria das escolas de samba, dos abadás e coisas do gênero. É um ato de heroismo em favor da espontaneidade e do verdadeiro Momo.
A propaganda das agências de viagem é que todo brasileiro gosta de carnaval, pois tem alegria, tem colorido, tem mulata, bunda, peito, sexo, cerveja, turista, dinheiro, praia, e principalmente um longo feriado.
Mas, gostar de Carnaval, ao contrário dos arautos do apocalípse, não é o caldeirão do inferno. Refiro-me àquela brincadeira em família reunida, fantasiada, curtindo-se mutuamente o que, digo logo, é uma raridade hoje em dia.
O filósofo alemão Nietzsche fala sobre a importância do fútil, do frívolo e do inútil, principalmente em uma sociedade cuja a preocupação fundamental é com o trabalho e com o ganha pão. Ora, se não fossem o fútil, o frívolo e o inútil, aí sim, nossa vida seria uma chatice sem tamanho, pois quem quer viver só para trabalhar? Quanto ao resto das críticas ao carnaval é realmente de se questionar se é válido sentir culpa por ousar gostar da festa.
Se você brincou carnaval de maneira sadia, com sua família, com seus amigos, para esquecer, um pouco, as agruras da vida, não sinta complexo de culpa.
Não caia na armadilha daqueles que querem te impor, para te dominar, um sentimento de culpa que em realidade você nem está sentindo.
Minha avó dizia que “um triste santo, é um santo triste”. Não acredite em máscaras usadas fora do ambiente carnavalesco para aparentar suposta seriedade.
Os santinhos do pau ôco são os piores. Se você brincou seu Carnaval de maneira sadia, estenda sua alegria pelo ano todo e fique de cabeça erguida porque Deus não pune ninguém por ter uma alegria sã.